Por mais difícil que seja a despedida, chegou a hora do adeus. Após quase dez anos, mais de mil minutos nas telas e uma quantidade quase incontável de dinheiro nos cofres da Warner Bros., a saga do bruxo Harry Potter nos cinemas chegou ao fim. O oitavo e último filme da séria, “Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2″, estreou no dia 15 de julho, batendo o recorde de bilheteria em dia de estreia. Não é pouca coisa, afinal, estamos falando de uma febre, um estilo de vida adotado por uma infinidade de pessoas, algo que extrapola os limites das salas de cinema.
O enredo de fantasia, que aborda temas como amizade, coragem, lealdade e a tradicional luta do bem contra o mal, cativa desde crianças até idosos, e parte desse sucesso se deve ao potencial de identificação com a história de Harry, um jovem órfão que se descobre bruxo, e seus cupinchas. A emoção de assistir ao final da série também não vê barreiras na idade do espectador: é um épico que não deixa ninguém piscar os olhos.
A série
Resumir o final da saga em um review do último filme seria uma injustiça sem tamanho, o legado de Potter merece mais. Faço parte da geração que cresceu lendo os livros, começando em 2001, pouco tempo antes da estreia do primeiro filme, quando começava a me interessar por leitura (e sem dúvidas os livros de J.K. Rowling foram o maior incentivo na época). Em 2007 as aventuras literárias chegaram ao fim, época em que já não era tão apaixonado pela série, havia crescido, o que não impediu de devorar o sétimo livro na semana de lançamento, em pouquíssimos dias. Mas ainda sobraram os filmes. Ah, os filmes…
O primeiro longa da série chegou ao Brasil um ano após o livro, em 2001. Com um misto de atores jovens e consagrados no Reino Unido e dirigido por Chris Columbus, “Harry Potter e a Pedra Filosofal” abriu caminho para a saga nos cinemas, que, verdade seja dita, custou a engrenar e convencer. O já citado primeiro filme chegou a incomodar os fãs dos livros por mudar alguns pontos, inventar outros e excluir momentos e personagens de importância relativa. Os altos e baixos se mantiveram até o quinto filme, “HP e a Ordem da Fênix”, dirigido por David Yates, que se firmou na batuta após o insucesso de Columbus, Alfonso Cuarón (que realizou “HP e o Prisioneiro de Azkaban”, um bom filme) e Mike Newell (do bombástico “HP e o Cálice de Fogo”).
David Yates deu novo tom à série no momento certo. Lord Voldemort havia retornado e os filmes precisavam sustentar essa tensão e densidade. Os quatro filmes dirigidos por ele apresentaram um ar sombrio, o que ajudou na dramatização. Não por acaso são esses os melhores filmes de Harry Potter, em ordem crescente, tendo seu ápice no capítulo final. E que capítulo final, meus amigos! Mesmo depois de perder o encanto (sem trocadilhos) pela série após o fim da história nos livros, me rendi ao filme logo nos minutos iniciais. Confesso que um dos motivos que mais me atraiu ao cinema foi a possibilidade de ver o primeiro trailer de “The Dark Knight Rises”, sendo traído pelo meu atraso (afinal, rolou esse trailer?). No fim das contas, saí do cinema com a ótima sensação de “poxa, queimei minha língua”.
O final: Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2
Primeiras considerações: pense duas vezes antes de ir ao cinema caso não tenha assistido aos filmes anteriores. E desista completamente caso não tenha visto o antecessor de “HP7 – Parte 2″, você provavelmente não vai entender nada e achar o filme chato até, pelo menos, a metade. O longa começa exatamente onde o anterior parou, com ritmo cadenciado e montagem paralela com cenas de Harry e Voldemort. A cadência é jogada para escanteio logo e a seguir o ritmo não cai. São batalhas, mistérios desvendados, fugas em um dragão ucraniano, mortes… Ou seja, tudo que um filme precisa para ser um épico, adjetivo que se encaixa perfeitamente nesse filme.
Tecnicamente é impecável. Até o presente momento não me perdoei por ter optado pela versão em 2D, perdi alguns belos momentos de ação em três dimensões, mas ainda vou me dar essa chance durante a semana. O elenco está melhor do que nunca. Daniel Radcliffe, Rupert Grint e Emma Watson estão em sua melhor forma, mostrando que, sim, evoluíram muito desde o capítulo inicial. No entando, destaco os nomes de dois atores: Ralph Fiennes, o Lord Voldemort, e Alan Rickman, o Severo Snape nas telonas. O primeiro conta com o apoio da maquiagem, mas ainda assim dá um show de interpretação, principalmente nos momentos finais do filme. Já Rickman sempre esteve excelente na pele do personagem mais profundo e complexo da série, mas no episódio final ele rouba totalmente a cena, conseguindo transmitir toda a frieza de seu personagem, tudo na dose certa. Ponto para o ator britânico de 65 anos.
O enredo dispensa comentários. Como toda adaptação deve ser, apresenta os mesmos elementos dos livros, a mesma história, mas usa de outros recursos, acrescenta e retira sem prejudicar, de forma que a história possa funcionar também no cinema. A divisão do último livro em dois filmes foi positiva, tivemos, sem desmerecimento nenhum, um primeiro filme que serviu única e exclusivamente para introduzir o épico final. A ideia funcionou tanto financeiramente quanto em termos de história. Já posso me imaginar num futuro próximo assistindo aos dois filmes em sequência.
No instante em que sobem os créditos finais, fica aquela sensação de ter participado de um momento histórico. Senti falta de alguma coisa? Não. Faria algo de forma diferente? Talvez exploraria mais a cena da batalha bruxa em Hogwarts, mas não é algo que diminuiu o filme, apenas uma opinião deste que vos escreve. Sem precisar pensar aponto esse último longa como o melhor da série, e agora posso ver os sete filmes anteriores como uma grande introdução. Vale o ingresso e dá vontade de voltar para assistir mais uma vez.
Afinal, tudo acaba?
Sobre a série, infelizmente chegou o momento do adeus. Se no final do sétimo livro tínhamos os filmes como consolo, dessa vez a perspectiva não é mais tão positiva. Mas dizer que Harry Potter chegou ao fim é, no mínimo, precipitado. Não que eu deposite alguma esperança no portal “Potter More”, lançado há algumas semanas, mas uma série com tanto potencial, uma história tão complexa, bem desenvolvida e amarrada, não morreria facilmente. Não enquanto houver essa legião calorosa de fãs, da qual faço parte de forma contida. Espero um dia poder ler essa história para meus filhos e netos, por acreditar que J.K. Rowling conseguiu escrever uma história atemporal, justamente por falar de um assunto que encontra contexto em qualquer que seja a época. Bruxaria? Claro que não! Falo de amor, amizade, lealdade e tantas outras coisas que aprendemos com Harry Potter. Vai deixar saudades? Não, e digo isso pelo simples fato de que esse conto é imortal, estará sempre aí, seja em livros, filmes ou em nossa memória. Afinal, o que é bom dura pra sempre.















